Sexta-feira, 31 de Julho de 2009
batem à porta

 

Batem à porta de noite.

Vou abrir. Ninguém entrou.

 

Entra uma nuvem de gritos,

Um relâmpago de pranto.

 

Sobem a escada. E entretanto

Dizem que são quem eu sou.

 

***

Natércia Freire

Benavente  (1920 - 2004)


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lido em: Antologia Poética

publicado por carlossilva às 12:29
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Quinta-feira, 30 de Julho de 2009
verso e reverso

 

Diziam-se as palavras que já sabes,

mas também se dizia o indizível.

 

Diziam-se estes prumos e as traves,

mas também os pregos que os uniam.

 

Dizia-se o prazer de algumas frases,

mas também o bolor que se estendia

a vozes de comando e a discursos

retóricos, arrebatados.

 

***

João Rui de Sousa


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lido em: Quarteto para as próximas chuvas

publicado por carlossilva às 21:21
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Quarta-feira, 29 de Julho de 2009
cmyk

 

O bom amigo das cores

Chora pérola e carmim. Não conhece a laurissilva

Nada sabe do alecrim. Ideou uma catedral

A deuses policromados

Em custódias de âmbar mole

& graais de azul-sulfato. Nada em chávenas

Turquesa com peixes azul-de-prússia;

O corpo ondulante e opala

Desmaia em brancuras de marquesa.

Cobre a cabeça aos deuses

Com elmo cúpreo-acintoso. Emite azul, amarelo

& preto - ais da calda bordalesa.

O meu grande amor opaco

Chora em palco de corais

& eu limpo-lhe a cara com os dedos

Vermelhos de cochinilha. Deus do azul, do

Amarelo & da juvenil verdura

Com que tantas mantas de pintam,

Ele é de+cor por ser gramado.

 

***

Maria Estela Guedes

Britiande (Lamego) - 1947
 

*************************************

 

 


lido em: Geisers

publicado por carlossilva às 01:19
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Terça-feira, 28 de Julho de 2009
a magnólia

 

a exaltação do mínimo

e o magnífico relâmpago

do acontecimento mestre

restituem-me a forma

o meu esplendor

 

Um diminuto berço me recolhe

onde a palavra se elide

na matéria - na metáfora -

necessária e leve, a cada um

onde se ecoa e resvala-

 

A magnólia,

o som que se desenvolve nela

quando pronunciada,

é um exaltado aroma

perdida na tempestade,

 

um mínimo ente magnífico

desfolhando relâmpagos

sobre mim

 

***

Luiza Neto Jorge
 

*************************

 



publicado por carlossilva às 01:55
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a magnólia

A exaltação do mínimo, 
e o magnífico relâmpago 
do acontecimento mestre 
restituem-me a forma 
o meu resplendor. 
.
Um diminuto berço me recolhe 
onde a palavra se elide 
na matéria - na metáfora - 
necessária,e leve, a cada um 
onde se ecoa e resvala. 

A magnólia, 
o som que se desenvolve nela 
quando pronunciada, 
é um exaltado aroma 
perdido na tempestade, 

um mínimo ente magnífico 
desfolhando relâmpagos 
sobre mim. 

***
Luiza Neto Jorge

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publicado por carlossilva às 01:48
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Segunda-feira, 27 de Julho de 2009
na tua boca cantou subitamente uma voz

 

Na tua boca cantou subitamente uma voz.

E, ao dizeres o meu nome na rede de um abraço,

o rio que outrora bordava o campo emudeceu

com as suas pedras lisas. Então, foi possível

 

ouvir o vento soprar nas asas das borboletas

e os lagartos recolherem-se nos veios dos muros

e o sol ferir-se nos espinhos das roseiras.

 

Sobre a colina quente passou uma nuvem

e uma ave poisou, perplexa, no fio do horizonte - 

por um instante, o dia mostrou as suas pálpebras tristes;

 

e, na brancura cega desse entardecer, a tua mão

escorregou pela inclinação do sol e veio contar

as sombras no meu decote.

 

São assim as mais pequenas histórias do mundo.

 

***

Maria do Rosário Pedreira

 

**********************************

 


lido em: O Canto do Vento nos Ciprestes

publicado por carlossilva às 00:38
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Domingo, 26 de Julho de 2009
limpar o pó

 

Como se ontem e os dias antes de ontem

se tivessem desfeito sobre as prateleiras,

 

como se pudéssemos escrever palavras

nas suas cinzas com a ponta do dedo,

 

como se bastasse soprar para vermos

as suas imagens de novo, numa nuvem.

 

***

José Luís Peixoto

 

*************************

 


lido em: Gaveta de Papéis

publicado por carlossilva às 02:52
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Sábado, 25 de Julho de 2009
não sei de amor senão

 

Não sei de amor senão o amor perdido

o amor que só se tem de nunca o ter

procuro em cada corpo o nunca tido

e é esse que não pára de doer.

Não sei de amor senão o amor ferido

de tanto te encontrar e te perder.

 

não sei de amor senão o não ter tido

teu corpo que não cesso de perder

nem de outro modo sei se tem sentido

este amor que só vive de não ter

o teu corpo que é meu porque perdido

não sei de amor senão esse doer.

 

Não sei de amor senão esse perder

teu corpo tão sem ti e nunca tido

para sempre só meu de nunca o ter

teu corpo que me dói no corpo ferido

onde não deixou nunca de doer

não sei de amor senão o amor perdido

 

Não sei de amor senão o sem sentido

sete amor que não morre por morrer

o teu corpo tão nu nunca despido

o teu corpo tão vivo de o perder

neste amor que só é de não ter sido

não sei de amor senão esse não ter.

 

Não sei de amor senão o não haver

amor que dure mais do que o nunca tido.

Há um corpo que não pára de doer

só esse é que não morre de tão perdido

só esse é sempre meu de nunca o ser

não sei de amor senão o amor ferido.

 

não sei de amor senão o tempo ido

em que amor era amor de puro arder

tudo passa mas não o não ter ido

o teu corpo de ser e de não ser

só esse é meu por nunca ter ardido

não sei de amor senão esse perder.

 

Cintilante na noite um corpo ferido

só nele de o não ter tido eu hei-de arder

não sei de amor senão amor perdido.

 

***

Manuel Alegre

 

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lido em: Livro do Português Errante

publicado por carlossilva às 02:23
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Sexta-feira, 24 de Julho de 2009
a noite encerra um sonho

 

a noite encerra um sonho

que tocamos com dedos de sal

 

e pelo canto do olho um voo

que se desfaz em surdina

deixando no último vulto

um segredo de asas lúcidas

 

pulsa agora no rasto de pó

brilhante que introduz o escuro

um certo passo final

e o corpo todo se interroga horizontal

vestindo-se de uma crença antiga

que lhe cobre o descanso

com uma certeza diurna do regresso

 

***

Pedro Afonso

 

********************



publicado por carlossilva às 05:33
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Quinta-feira, 23 de Julho de 2009
ouro sob água

 

Só me lembro que atrás de nós havia um morro,

a mata

No centro, a música, o violão

Fazia frio e nuvens

se aqueciam pelo som.

Havia, entre outros,

uma água

um menino cortando cabelo na beira da casa

as tangerinas no pé.

Do grupo, um homem

me perguntava

sobre a melhor forma

de começar um banho

sem reparar no profunda da questão

 

- Entro devagar

ou de uma vez por todas? perguntou

 

- Por todas, respondi

Não há céu ou inferno

que comece devagar.

 

***

Suzana Vargas

Alegrete (RS) - Brasil (1955)

 

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publicado por carlossilva às 11:56
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