Terça-feira, 30 de Junho de 2009
a aventura é ficar!...

 

Calafetado contra os sonhos, fico

Contigo, prisioneiro dos liames

Que te cercam e cercam o teu rosto,

A tua carne rasgada nos arames.

 

Extingui-se o apelo da partida...

As quilhas já não sofrem a espuma.

Fico contigo na luta pelo dia

No endurecido leito de caruma.

 

Tu estás sentada sobre a terra...

Pelas searas corre um vento rude.

Teu corpo é uma espiga amadurecida

Pela água aprisionada do açude.

 

Corsários acamaradam no mar largo...

Mas do teu caule fino, nasce a ondeia

à minha volta, uma canção serena

Que me prende docemente à sua teia.

 

***

Egito Gonçalves (1920 - 2001)

Matosinhos

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Segunda-feira, 29 de Junho de 2009
elegia

 

Florescia

A pionia

De anos em anos, apenas.

Se a primavera

Era

Fria,

Mal se erguia

O caule das açucenas.

Rastejavam as verbenas...

Mas uma flor sempre havia

Que era a que mais rescendia:

Lembras-te, ao dar meio-dia,

Postas, as tuas mãos morenas...?

 

Às quais sagro esta elegia.

 

***

José Régio

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Domingo, 28 de Junho de 2009
autoficção da amorosa

 

Construí-a

irreal

transparente

lúcida          esguia              um mar

                                        interior na barriga

    correias de transmissão nos cabelos

 

Os anéis de Saturno são a força centri-

       fuga centrípeta que lhe agita os braços

       no espaço amoroso

 

Halley o metropolitano

 

75 milhões de anos-luz atravessam-na da cabeça

                                                                        à cauda

 

deito-me com ela todas as noites na via láctea

 

***

Pedro Oom (1926 - 1974)

Santarém

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Sábado, 27 de Junho de 2009
não choro...

 

A dor não me pertence.

 

Vive fora de mim, na natureza,

livre como a electricidade.

 

Carrega os céus de sombra,

entra nas plantas,

desfaz as flores...

 

Corre nas veias do ar,

atrai aos abismos,

curva os pinheiros...

 

E em certos momentos de penumbra

iguala-me à paisagem,

surge nos meus olhos

presa a um pássaro a morrer

no céu indiferente.

 

Mas não choro. Não vale a pena!

A dor não é humana.

 

***

José Gomes Ferreira

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Sexta-feira, 26 de Junho de 2009
e por vezes

 

E por vezes as noites duram meses

E por vezes os meses oceanos

E por vezes os braços que apertamos

nunca mais são os mesmos     E por vezes

 

encontramos de nós em poucos meses

o que a noite nos fez em muitos anos

E por vezes fingimos que lembramos

E por vezes lembramos que por vezes

 

ao tomarmos o gosto aos oceanos

só o sarro das noites não dos meses

lá no fundo dos copos encontramos

 

E por vezes sorrimos ou choramos

E por vezes por vezes ah por vezes

num segundo se evolam tantos anos

 

***

 

David Mourão-Ferreira

 

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publicado por carlossilva às 08:50
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Quinta-feira, 25 de Junho de 2009
o penúltimo poema

 

Também sei fazer conjecturas.

Há em cada coisa aquilo que ela é que a anima.

Na planta está por fora e é uma ninfa pequena.

No animal é um ser interior longínquo.

No homem é a alma que vive com ele e é já ele.

Nos deuses tem o mesmo tamanho

E o mesmo espaço que o corpo

E é a mesma coisa que o corpo.

Por isso se diz que os deuses nunca morrem.

por isso os deuses não têm corpo e alma

Mas só corpo e são perfeitos.

O corpo é que lhes é a alma

E têm a consciencia na própria carne divina.

 

***

Alberto Caeiro

 

****************************

 

 



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Quarta-feira, 24 de Junho de 2009
a magnólia

 

A exaltação do mínimo,

e o magnífico relâmpago

do acontecimento mestre

restituem a forma

o meu esplendor.

 

Um diminuto berço me recolhe

onde a palavra se elide

na matéria - na metáfora -

necessária, e leve a cada um

onde se ecoa e resvala.

 

A magnólia,

o som que se desenvolve nela

quando pronunciada,

é um exaltado aroma

perdido na tempestade,

 

um mínimo ente magnífico

desfolhando relãmpagos

sobre mim.

 

***

Luiza Neto Jorge

 

*****************************

 



publicado por carlossilva às 16:40
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Terça-feira, 23 de Junho de 2009
devia olhar o rei

 

Devia olhar o rei

Mas foi o escravo que chegou

Para me semear o corpo de erva rasteira

 

Devia sentar-me na cadeira ao lado do rei

Mas foi no chão que deixei a marca do meu corpo

 

Penteei-me para o rei

Mas foi ao escravo que dei as tranças do meu cabelo

 

O escravo era novo

Tinha um corpo perfeito

As mãos feitas para a taça dos meus seios

 

Devia olhar o rei

Mas baixei a cabeça

Doce terna

Diante do escravo.

 

***

Paula Tavares (1952)

Huíla - Angola

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Segunda-feira, 22 de Junho de 2009
a flor que se espera

 

Que maravilha de cor             que azul e branco

nos teus ombros de pele alvoroçada!

Que recortada flor nos sedimentos

de um sol nascente e lassidão marcada!

 

Que distorção correcta e que alimento

de renovada fome enquanto o nada

aparece fortuito            enquanto o vento

é cortina de pedra e não nos fala!

 

Que paz ou sombra... Não - que cumeada

a percorrer com o gesto em desalinho

em confusão de voz desatinada!

 

O sol está perto e longe do destino

vai-nos encher ou não de flores de vinho

que se esperam em espera tão esperada

 

***

João Rui de Sousa

Lisboa - 1928

********************************

 



publicado por carlossilva às 12:36
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Domingo, 21 de Junho de 2009
em longo se transforma

 

Em longo se transforma o breve engano,

e o discurso em vento,

e o desejo em medo.

E a esperança

em memória, e o pensamento

em bússola cega

para o mundo.

E em vidro o espelho apaga,

gasto de mágoas e mudanças,

o claro rosto do futuro.

 

***

Pedro Mexia

 

*******************



publicado por carlossilva às 00:46
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