Sábado, 31 de Janeiro de 2009
canção do violeiro


Passa, ó vento das campinas,
Leva a canção do tropeiro.
Meu coração 'stá deserto,
'Stá deserto o mundo inteiro.
Quem viu a minha senhora
Dona do meu coração?


Chora, chora na viola,
Violeiro do sertão.


Ela foi-se ao pôr da tarde
Como as gaivotas do rio.
Como os orvalhos que descem
Da noite num beijo frio,
O cauã canta bem triste,
Mais triste é meu coração.


Chora, chora na viola,
Violeiro do sertão.


E eu disse: a senhora volta
Com as flores da sapucaia.
Veio o tempo, trouxe as flores,
Foi o tempo, a flor desmaia.
Colhereira, que além voas,
Onde está meu coração?


Chora, chora na viola,
Violeiro do sertão.


Não quero mais esta vida,
Não quero mais esta terra.
Vou procurá-la bem longe,
Lá para as bandas da serra.
Ai! triste que eu sou escravo!
Que vale ter coração?


Chora, chora na viola,
Violeiro do sertão.

 

***

Castro Alves (1847-1871)

Brasil



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Sexta-feira, 30 de Janeiro de 2009
noite

Eu vivo

nos  bairros escuros do mundo
sem luz nem vida.

Vou pelas ruas
às apalpadelas
encostado aos meus informes sonhos
tropeçando na escravidão
ao meu desejo de ser.

São bairos de escravos
mundos de miséria
bairros escuros.

Onde as vontades se diluíram
e os homens se confundiram
com as coisas.

Ando aos trambolhões
pelas ruas sem luz
desconhecidas
pejadas de mística e terror
de braço dado com fantasmas.

Também a noite é escura.

 

***

Agostinho Neto (1922-1979)

Angola



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Quinta-feira, 29 de Janeiro de 2009
meninas e meninos

Todos já vimos
nos livros, nos jornais, no cinema e na televisão
retratos de meninas e meninos
a defender a liberdade de armas na mão.


Todos já vimos
nos livros, nos jornais, no cinema e na televisão
retratos de cadáveres de meninos e meninas
que morreram a defender a liberdade de armas na mão.


Todos já vimos!
E então?

***

Fernando Sylvan (1917-1993)

Timor Leste
 

 



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Quarta-feira, 28 de Janeiro de 2009
imprecisão


À MimiTchum Mi-Liem


“Teu olhar é corsário destemido de aventura
Nómada de oceanos
Ternura em traço leve
Leve traço de ternura

Teu rosto é concha de caranguejo
Abrigo de procelas
Beijo em terra longe
Terra longe num beijo

Tuas mãos são gomil de mestiçagem
Telas de delírio
Paisagens de horizonte
Horizontes de paisagem"

 

***

Olinda Beja (1946)

S. Tomé e Príncipe


lido em: Água Crioula

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Terça-feira, 27 de Janeiro de 2009
linha de rumo


Quem não me deu Amor, não me deu nada.
Encontro-me parado...
Olho em meu redor e vejo inacabado
O meu mundo melhor.

Tanto tempo perdido...
Com que saudade o lembro e o bendigo:
Campo de flores
E silvas...

Fonte da vida fui. Medito. Ordeno.
Penso o futuro a haver.
E sigo deslumbrado o pensamento
Que se descobre.

Quem não me deu Amor, não me deu nada.
Desterrado,
Desterrado prossigo.
E sonho-me sem Pátria e sem Amigos,
Adrede.

 

***

Ruy Cinatti (1915-1986)

Londres



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Segunda-feira, 26 de Janeiro de 2009
xicuembo

Eu bebeu suruma

dos teus ólho Ana Maria

eu bebeu suruma

e ficou mesmo maluco

 

agora eu quero dormir quer comer

mas não pode mais dormir

não pode mais comer

 

suruma dos teus olhos Ana Maria

matou sossego no meu coração

oh matou sossego no meu coração

 

eu bebeu suruma oh suruma suruma

dos teus ólho Ana Maria

com meu todo vontade

com meu todo coração

 

e agora Ana Maria minhamor

eu não pode mais viver

eu não pode mais saber

 

que meu Ana Maria minhamor

é mulher de todo gente

é mulher de todo gente

todo gente todo gente

 

menos meu minhamor.

 

***

Rui Nogar (1932-1993)

Moçambique

 


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Domingo, 25 de Janeiro de 2009
e o poeta falou


Falei da ambição
dos homens
era já dia
falei da paz
do grito de Angola
do homem sem rosto
da criança que virou velho

Falei do homem-bicho
outros falaram do bicho-homem
essa coisa sem cabeça
nem coração
outros e mais outros
falaram do mundo-cão
onde a ambição
fala mais alto que o coração

Clamei pelas crianças de Moçambique
vi-me nas ilhas sem nome
chorando a angústia alheia
enquanto isso
o bicho-homem
vestido de homem-bicho
caminhava para a minha moransa*

Esse homem sem cabeça
coração na planta dos pés
que a todos leva ao sepulcro
a sete pés
debaixo da terra
pisou o meu chão
calcou a minha gente
não precisava de um pelotão
apenas ter ambição nos olhos
ódio nas mãos
e tocar o bombolon** da morte

*Moransa - aglomerado de casas pertencente a uma família extensa
**Bombolon - instrumento de percussão

***
Maria Odete da Costa Soares Semedo (1959)

Guiné-Bissau


lido em: No Fundo do Canto

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Sábado, 24 de Janeiro de 2009
a garrafa

Que importa o caminho

da garrafa que atirei ao mar?

Que importa o gesto que a colheu?

Que importa a mão que a tocou

         — se foi a criança

         ou o ladrão

         ou filósofo

         quem libertou a sua mensagem

         e a leu para si ou para os outros.

 

Que se destrua contra os recifes

eu role no areal infindável

ou volte às minhas mãos

na mesma praia erma donde a lancei

ou jamais seja vista por olhos humanos

que importa?

         ... se só de atirá-la às ondas vagabundas

         libertei meu destino

da sua prisão?...

 

***

Manuel Lopes (1907-2005

Cabo Verde



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Sexta-feira, 23 de Janeiro de 2009
anomalia

Na anomalia
de volver-me todo dia,
como quem quer encontrar
lucidez onde é loucura;
desconstruo o que me fiz
quando perdi as fantasias...

um diz virá quando, enfim,
no mergulho mais profundo
poderei comungar comigo
a paz de não ser nada,
de não ter nada,
do nada.

 

***

Fred Matos (1952)

Brasil



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Quinta-feira, 22 de Janeiro de 2009
inclinação do tempo

à tarde   com as sombras inclinadas

nos prédios   nas paredes

as aves perpetuam o regresso

do tempo que decai

 

as aves que se inclinam na distância

das sombras desta tarde

cai a tarde com as aves e o tempo.

detrás da nua cortina

 

a esquina da tua face inclinada

tecida sobre o tempo

uma ave borda o vôo na toalha

 

a linha branca e a azul

a cor do céu azul da cor do céu

inclina o vôo da ave.

 

descanso a ave no tempo inclinado.

 

***

José do Nascimento Félix (1946)

Angola



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