Sexta-feira, 31 de Outubro de 2008
regresso por outro rio

se regressar, será aos teus olhos que regresso.

os acasos ardem nos lábios dos amieiros que na margem do rio

aguardam que regresse. a isso regresso, buscando

coincidências e nomes, razões. afasto-me

provavelmente de ti, embora secretamente.

 

é por isso estranha a forma como os acasos ardem

para sempre. a outro rio e sob outras sombras

regresso, devagar para não ferir o que antes amei

e por quem morri muitas vezes. agora de novo morro

 

e por outro rio regresso até ao lugar onde elas, as aves,

nascem para não desaparecerem. e isso é como permanecer.

 

***

Francisco José Viegas (1962)

Vila Nova de Foz Coa (Portugal)

 

 


lido em: Todas as Coisas

publicado por carlossilva às 01:22
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Quinta-feira, 30 de Outubro de 2008
as folhas celebram o vento

As folhas celebram o vento

celebram o rodar do tempo,

o movimento perpétuo das coisas.

 

No coração da tarde

acendo o poema:

no seu pulsar vermelho

as folhas repetem ao ouvido

a nomeação serena do amor

 

***

Nuno Higino (1960)

Sendim (Felgueiras)


lido em: Onde Correm as Águas

publicado por carlossilva às 13:24
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Quarta-feira, 29 de Outubro de 2008
mais uma noite, amor
 
 

Mais uma noite, amor. Ao recordar-te
retomo os fins do mundo, a cinza, os dias
manchados de outras lágrimas. Sabias
como eu a cor das sombras, essa arte

que nos engana agora e se reparte
por esquinas e cafés. Já não me guias
os muitos passos vãos, as fantasias
da minha falsa vida. Vou deixar-te

fugindo-me. Na chuva, sem ninguém,
apenas alguns vultos, o que vem
«e dói não sei porquê» -este deserto

onde te vejo, imagem outra vez,
até de madrugada. O que me fez
sentir o muito longe aqui tão perto?



Fernando Pinto do Amaral (1960)

Lisboa


lido em: A Escada de Jacob

publicado por carlossilva às 10:53
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Terça-feira, 28 de Outubro de 2008
no sonho dos gatos

no sonho dos gatos

existe um eterno pássaro

colorido

 

e uma árvore mais alta

do que o latir dos cães

 

***

Francisco Duarte Mangas (1960)

(Vieira do Minho)

 


lido em: Pequeno Livro da Terra

publicado por carlossilva às 00:01
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Segunda-feira, 27 de Outubro de 2008
no parque da cidade

O parque desce sob o meu olhar

instável desce para o lago

onde florescem latas de cerveja, folhas

e a névoa dos namorados.

 

À superficie das coisas o pó

aquietado da vida, a poalha dos impropérios

da castiça, o fumo do monte branco

a coroar, à hora da bica, a ave da juventude

 

que assobia canções combatentes.

Muita coisa começou assim, um punhal

a esmagar os sonhos, uma pedra a torcer

o primeiro amor contra o mundo.

 

Mais tarde, é sempre mais tarde, a morte

de amigos cuspiu de mim toda a cidade,

as ruelas que iam para o fontelo

escureceram também para sempre.

 

O silêncio, como o inferno, começa sempre

com os outros.

 

***

Fernando Luís Sampaio (1960)

Moçambique



publicado por carlossilva às 01:04
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Domingo, 26 de Outubro de 2008
amanhece

Amanhece

e no espreguiçar dos olhos

absorvo a tontura do novo dia

 

ao sair do quarto

atravesso o branco sujo da manhã

e vou tomar café com muito açúcar

 

levo um pastel de Tentúgal para a varanda

e mastigo-o ouvindo as harpas da cidade

 

e quando tu chegas de roupão

bebendo o teu cacau

explico-te o horizonte com barcos

 

***

Daniel Maia - Pinto Rodrigues (1960)


lido em: O Valete do Sétimo Naipe

publicado por carlossilva às 00:01
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Sábado, 25 de Outubro de 2008
lembrava-se dele e, por amor, ainda que pensasse

Lembrava-se dele e, por amor, ainda que pensasse

em serpente, diria apenas arabesco; e esconderia

na saia a mordedura quente, a ferida, a marca

de todos os enganos, faria quase tudo

 

por amor: daria o sono e o sangue, a casa e a alegria,

e guardaria calados os fantasmas do medo, que são

os donos das maiores verdades. Já de outra vez mentira

 

e por amor haveria de sentar-se à mesa dele

e negar que o amava, porque amá-lo era um engano

ainda maior que mentir-lhe. E, por amor, punha-se

 

a desenhar o tempo como uma linha tonta, sempre

a cair da folha, a prolongar o desencontro.

E fazia estrelas, ainda que pensasse em cruzes;

arabescos, ainda que só se lembrasse de serpertes.

 

***

Maria do Rosário Pedreira (1959)


lido em: A Casa e o Cheiro dos Livros

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Sexta-feira, 24 de Outubro de 2008
plágio para amadores

Diz-me de amor ardente se não ver,

metáfora que em verso meu somente

me traz de novo a ferida mais contente

e a dor que desatina sem doer.

Teu querer é metonímia de quem quer

a si se convencer do que já sente,

abrir e reabrir constantemente

o verbo que se perde em querer saber.

Persegues vencedora o invencível,

e partes minha vida em duas partes:

nenhuma me pertence e o impossível

reparte-se por ti com tantas artes

que nada se assemelha a tal desnível

de amar essa loucura, os baluartes.

 

Amor é água ardente enquante arde.

 

***

Luís Adriano Carlos (1959)


lido em: Livro de Receitas

publicado por carlossilva às 05:00
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Quinta-feira, 23 de Outubro de 2008
paixão

Ficávamos no quarto até anoitecer, ao conseguirmos

situar num mesmo poema o coração e a pele quase podíamos

erguer entre eles uma parede e abrir

depois caminho à água.

 

Quem pelo seu sorriso então se aventurasse achar-se-ia

de súbito em profundas minas, a memória

das suas mais longínquas galerias

extrai aquilo de que é feito o coração.

 

Ficávamos no quarto, onde por vezes

o mar vinha irromper. É sem dúvida em dias de maior

paixão que pelo coração se chega à pele.

Não há então entre eles nenhum desnível.

 

***

Luís Miguel Nava (1957 - 1996)

 


lido em: Poemas

publicado por carlossilva às 09:00
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Quarta-feira, 22 de Outubro de 2008
sagres

Só tenho uma ponta de

cigarro para fumar

E para apagá-la:

todo o mar

 

***

Jorge Sousa Braga (1957)


lido em: O Poeta Nu

publicado por carlossilva às 12:31
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