Terça-feira, 30 de Setembro de 2008
cântico

Belo é ver florir os galhos

das velhas árvores.

E ver chegar as aves
que voltam do Sul.
Belo é o sangue rubro
dum lanho fresco,
e o riso que nasce
das nossas palavras.
Belo é o vir da manhã
sobre os telhados nus
das cidades brancas.

E mais belo ainda
que este sol visível
enflorando, amor,
teus longos cabelos
de guizos dourados:
mais belos que os ventos
cavalgando as nuvens
e dizendo-nos: vinde!,
e que o meu gênio abrindo
suas asas nos céus:

Mais belo que o fluir
silente desta célula
fluindo nos cosmos:
Mais belo, amor,
que a tua própria beleza

é este sol inviolável,
rútilo, no fundo de nós.
 

***


Papiniano Carlos
(1918)

Lourenço Marques (Moçambique)



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Segunda-feira, 29 de Setembro de 2008
setembro

agora o outono chega, nos seus plácidos

meneios pelas vinhas, um dos vizinhos passa

um cabaz de maçãs por sobre a vedação:

redondas, verdes, o seu perfume vai

dentro de quinze dias ser mais forte.

    

a noite cai mais cedo e apetece

guardar certos vermelhos da folhagem

e amarelos e castanhos nas ladeiras

de setembro. a rádio fala no tempo variável

que vem aí dentro de dias. talvez caia

  

uma chuvinha benfazeja, a pôr no ponto certo

os bagos de uva. e há poalhas morosas, mais douradas.

aproveita-se o outono no macio

enchimento dos frutos para colhê-lo a tempo.

devagar, devagar. é mais doce no outono a tua pele.

   

***

Vasco Graça Moura (1942)

Porto

  


lido em: Poesia 2001/2005

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Domingo, 28 de Setembro de 2008
a escrita é a minha primeira morada de silêncio

 

A escrita é a minha primeira morada de silêncio

a segunda irrompe do corpo movendo-se por trás das palavras

extensas praias vazias onde o mar nunca chegou

deserto onde os dedos murmuram o último crime

escrever-te continuamente... areia e mais areia

construindo no sangue altíssimas paredes de nada

esta paixão pelos objectos que guardaste

esta pele-memória exalando não sei que desastre

a língua de limos

espalhávamos sementes de cicuta pelo nevoeiro dos sonhos

as manhãs chegavam como um gemido estelar

e eu perseguia teu rasto de esperma à beira-mar

outros corpos de salsugem atravessam o silêncio

desta morada erguida na precária saliva do crepúsculo

 

 

 


***

Al Berto (1948 - 1997)
Coimbra (Portugal)

 

lido em: O Medo
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Sábado, 27 de Setembro de 2008
espanhola

 

 

Ela trazia nas mãos um objecto que desconhecia

 

Um garfo, um maço de tabaco, três pincéis

 

E um retrato inacabado e seis nozes esmigalhadas

 

E duas meias por coser e trinta farrapos de algodão

 

Que umas vezes levantava no ar outras escondia num bolso

 

Como um osso no primeiro verso mas já reconfigurado

 

 

 

Trazia uma profunda nostalgia mas isso era apenas engano

 

E não havia ali por perto papéis rasgados trapos velhos

 

Tudo aquilo era não mais que ilusão logro ansiedade

 

Como se no segundo verso houvesse ternura e terror

 

E tudo em volta dançasse cantasse apodrecesse

 

 

 

Ela era uma espécie de ave a quem ninguém pedia contas

 

Era, digamos assim, um sinal que alguém compreendia

 

Qualquer coisa realmente absolutamente material

 

 

 

Que se raspava da parede colocava num belo frasco vazio

 

Como se tudo fosse desaparecer a qualquer momento

 

 

como se por trás de tudo estivesse apenas um soluço.
 
***
Nicolau Saião (1942)
Monforte do Alentejo


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Sexta-feira, 26 de Setembro de 2008
pretexto

Por que não cai a noite, de uma vez? 
— Custa viver assim aos encontrões! 
Já sei de cor os passos que me cercam, 
o silêncio que pede pelas ruas, 
e o desenho de todos os portões.

 Por que não cai a noite, de uma vez? 
— Irritam-me estas horas penduradas 
como frutos maduros que não tombam.

 (E dentro em mim, ninguém vem desfazer
 o novelo das tardes enroladas.)
 

***

Maria Alberta Menéres



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Quinta-feira, 25 de Setembro de 2008
as mãos

Com mãos se faz a paz se faz a guerra.
 Com mãos tudo se faz e se desfaz.
 Com mãos se faz o poema - e são de terra.
 Com mãos se faz a guerra - e são a paz.
 
 Com mãos se rasga o mar. Com mãos se lavra.
 Não são de pedras estas casas, mas
 de mãos. E estão no fruto e na palavra
 as mãos que são o canto e são as armas.
 
 E cravam-se no tempo como farpas
 as mãos que vês nas coisas transformadas.
 Folhas que vão no vento: verdes harpas.
 
 De mãos é cada flor, cada cidade.
 Ninguém pode vencer estas espadas:
 nas tuas mãos começa a liberdade. 

 ***

Manuel Alegre



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Quarta-feira, 24 de Setembro de 2008
na ilha por vezes habitada

Na ilha por vezes habitada do que somos, há noites,
manhãs e madrugadas em que não precisamos de
morrer.
Então sabemos tudo do que foi e será.
O mundo aparece explicado definitivamente e entra
em nós uma grande serenidade, e dizem-se as
palavras que a significam.
Levantamos um punhado de terra e apertamo-la nas
mãos.
Com doçura.
Aí se contém toda a verdade suportável: o contorno, a
vontade e os limites.
Podemos então dizer que somos livres, com a paz e o
sorriso de quem se reconhece e viajou à roda do
mundo infatigável, porque mordeu a alma até aos
ossos dela.
Libertemos devagar a terra onde acontecem milagres
como a água, a pedra e a raiz.
Cada um de nós é por enquanto a vida.
Isso nos baste.

***
 

José Saramago


lido em: Provavelmente Alegria

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Terça-feira, 23 de Setembro de 2008
XLII

Uma súmula parte das ideias

 

Persegue entre abrigos

O mistério e o rumo

Do permanentemente irrisório

Para daí conseguir o rio

 

 A foz o mar

 

 ***
José Leon Machado (1965)
Braga (Portugal)


lido em: Peosa Versificada II

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Segunda-feira, 22 de Setembro de 2008
canção punitiva

Atarda-me o olhar naquela escarpa
(Distância intranquila de sombra
Ou penas de pássaros acamadas?)
Pena de mim mesmo enquanto lembro
No pálido ar, homem obscuro,
A sua imagem, inacessível.
Desconheço o azul de mulher tão lívida.
O coração é uma pequenina pedra rosa.
As minhas lágrimas são de metal.

***
 

José Emílio-Nelson (1948)

Espinho (Portugal)


lido em: Polifemo e Outros Poemas

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Domingo, 21 de Setembro de 2008
sophia mello breyner andresen

Tenho uma praia branca

de areia doce

na cabeça.

Raramente me esqueço

do mar e acordo sempre

com um cavalo amarelo correndo

sobre as ondas mansas

em direcção ao infinito

com um peixe preso na boca.

Nesses dias deito-me e imagino

montanhas à distância dos horizontes

vestidas com os verdes dos quotidianos

e as flores dos altares

e depois recolho-me ao sal

das bibliotecas fechadas.

 

 

***

José António Gonçalves (1954)

Funchal (Portugal)



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