Segunda-feira, 30 de Junho de 2008
rimas, manhã, e sem estereofonia

Não se me dava que daqui a bocado,

pela manhã, me telefonasses e,

ignorando-me a voz de sonho errado,

dissesses devagar "gosto de ti"

 

E me acordasse o toque de telefone:

relâmpago de som, eléctrico, ou

eu, como orfeu, ouvindo o gramofone

que eurídice, a velhaca, lhe deixou

 

Muito mais bom que orfeu seria a tua

voz a romãs (ou figos, ou amoras),

daqui a unha ínfima de lua,

ou seja, mais ou menos quatro horas

 

É que não se me dava, let alone

ter que estender a minha mão e com

ela pegar em ti ao telefone

e ouvir "gosto de ti", era bem bom

 

Ma esse sonho fica-se no meu

desejo a nada, e nem o telefone

me soa a teu futuro. Vem, Orfeu,

trá-la de volta...

                            Ou traz o gramofone -

 

***

Ana Luísa Amaral (1956)

Lisboa (Portugal)


lido em: Entre dois rios e outras noites

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Domingo, 29 de Junho de 2008
do medo em diante

Trazia a novidade de não ter medo

de descer a rua e atravessar a sombra

dos prédios atirada como arma

de granito, como festejo de civilização.

 

Perdera subitamente o medo do seu século,

do século que se vivia naquela rua

onde alguns se morriam à injecção,

do século das luzes dos seus vizinhos

a apagarem-se ao mesmo tempo

sem nunca terem trocado nada que não

essa distância de garagem, essa coincidência

dos horários civilizacionais.

 

Trazia a consciência de ser europeia

(África doera-lhe nos olhos como holofotes)

e de não querer escrever sobre esse assunto.

mas não ter medo de apagar sozinha a luz àquela hora,

não ter medo de nunca estacionar o carro na garagem

e de estar por isso sempre mais só do que os vizinhos,

 

pensava,

 

era suficientemente novo

para o poema.

 

***

Filipa Leal (1979)

Porto (Portugal)


lido em: O problema de ser norte

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Sábado, 28 de Junho de 2008
saída

    mulher a fazer vento espantada
    da falta do mesmo
    assim não se pranteando
    em ligeiros indícios com a mão lenta
    e um pé semovente um pouco à frente
    do que antes
    ter uma fé em suave detérmino
    devagar abandonando abandonos
    finíssima brisa nascendo em si
    sobrecalando rugidos, pancadas em rumor, gritos
    por detrás de onde a vemos sair agora
    em todos os lados o luar se faz divino
    sopro.

     

    ***

    Alberto Augusto Miranda (1956)

    Vila Real (Portugal)



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Sexta-feira, 27 de Junho de 2008
um pouco mais de paciência, serei breve

Um pouco mais de paciência, serei breve
ainda um pouco mais, serei tudo
a quem a causa deste tumulo
agradeço, agradeço, ao de leve

 

não por enquanto, que é só fingimento
de quem por mim isto escreve
nem com isso, por ora, me atormento
que enquanto o nada me serve

 

está longe aqui o pensamento
nem a ausência sinto, por vezes…
não, não minto; ou consolam os revezes

 

de outra gente. Espero o tempo
em que de novo e breve
alguém por mim aqui esteve.

 

***

Helga Moreira (1950)

Guarda (Portugal)


lido em: Tumulto

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Quinta-feira, 26 de Junho de 2008
arte poética

Demão depois da lixa, zarcão e betume na madeira, a sonoridade
da tinta nas passagens em que deixei que os crisântemos que
se interpunham fossem mais do verso que os espelhasse. Li até
escurecer os olhos. Abandonado, vale dizer.
Para uns, ainda, a poesia não dispensa
que o autor nas horas certas contemple as flores de papel. Era
assim pacientemente a florescência de um verso crescia no
canteiro. Eu, no toucador, agora debruçado escrevo
vírgulas que, de algum modo, dificultam pelo esforço da repetição
o andar da tarde. E o entardecer deixa que, na dobra das
nuvens, toque o canto rouco que escreve sem balbucios a única
página celeste folheada.

***

José Emílio - Nelson (1948)

Espinho (Portugal)


lido em: Mosaico

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Quarta-feira, 25 de Junho de 2008
pouco depressa

 

falo-te de chuva
como quem diz que as minhas mãos
não se exaltam em revisitar-te o peito


revejo todos os verdes
no peppermint do meu cálice
enquanto a janela abro
pouco depressa
sobre a tarde


falo-te de cansaço
como quem se sentasse
numa poltrona de lã


***
Daniel Maia-Pinto Rodrigues (1960 )
Porto (Portugal)

 


lido em: O Afastamento Está Ali Sentado

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Terça-feira, 24 de Junho de 2008
são joão

Ó São João, São João,

meu santinho marinheiro,

Leva-me na tua barca

Lá para o Rio de Janeiro.

 

Pega lá nesta viola,

Toca nela com paixão,

Como tocava meu pai

Nas noites de S. João.

 

S. João quer fazer casa,

É pobre, não tem dinheiro.

Fazei casa, S. João,

Que eu serei vosso pedreiro.

 

São João, p'ra ver as moças,

Fez uma fonte de prata;

As moças não vão à fonte,

S. João todo se mata.

 

S. João comprou um burro

P'ra ir pular as fogueiras;

Depois de as bem ter pulado

Deu-lo de presente às freiras.

 

- Ó meu S. João da Ponte,

Que tendes na mão fechada?

- A virtude das donzelas

Que por Deus foi despachada.

 

S. João adormeceu

Debaixo da laranjeira,

Caiu-lhe uma flor em cima

S. João tão bem que cheira.

 

***

selecção e organização de

José Fanha e José Jorge Letria


lido em: A Lira do Povo (Quinhentas Quadras Populares)
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Segunda-feira, 23 de Junho de 2008
santo antónio

St.º António é o meu pai,

S. Francisco meu irmão;

Os anjos são meus parentes,

Mas que linda geração.

 

A minha avó tem lá em casa

Um St.º António velhinho,

Em as moças não me querendo,

Dou pancadas no santinho.

 

St.º António de Lisboa,

Diz-se que és casamenteiro;

Fora isso coisa boa

Não ficavas tu solteiro!

 

St.º António, meu santinho,

nunca foi alcoviteiro;

Põe os noivos a caminho

Do amor mais verdadeiro.

 

St.º António vivei longe,

Nunca de nós se apartou,

E sempre presente esteve

Nos amores que consagrou.

 

Ao Menino, St.º António

Só um pedido deixou:

- Diz, quando chrgares ao Céu,

Que é de Lisboa que sou.

 

St.º António de Lisboa

Em Pádua foi acabar.

Deixou a cidade triste,

muita gente por casar.

 

St.º António era mestre

De prédicas e sermões,

Mas os milagres que fez

Foi sempre nos corações.

 

St.º António é um santo

Como não há outro igual;

Podem dizer que é de Pádua

Mas pertence a Portugal.

 

in A Lira do Povo (Quinhentas Quadras Populares)

***

selecção, organização de

José Fanha e José Jorge Letria 


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Domingo, 22 de Junho de 2008
saudade

Diz alguém que a despedida

Nada custa ao coração;

Quem tal diz que se despeça,

E verá se custa ou não.

 

Ó triste segunda-feira

Da semana que há-de vir,

O meu amor diz que embarca:

Quem o há-de ver sair?

 

Nesta cruel despedida,

Diz, amor, que hei-de fazer;

Levar-te não é possível,

Deixar-te não pode ser.

 

Meu amor na despedida

Nem uma fala me deu;

Deitou os olhos ao chão,

Ficou a chorar mais eu.

 

Mal o haja o bem-querer,

A mim própria me praguejo,

Não há um Deus que me leve

nas horas que te não vejo!

 

Como o vento é para o fogo,

É a ausência para o amor:

Se é pequeno, apaga-o logo;

Se é grande, torna-o maior.

 

Desgraçado malmequer,

Onde vieste nascer.

Aonde não há saudades,

Não pode haver bem-querer.

 

Ao Penedo da Saudade

Todos se vão recordar,

Todos dizem: bem me lembro!

Todos voltam a chorar.

 

Se fossem pedras as lágrimas

Que eu por ti tenho chorado,

Já formavam um castelo

No centro do mar salgado.

(...)

 

***

(quadras populares recolhidas por)

 

Jaime Cortesão (1884 - 1960)

Ançã (Cantanhede) - Portugal

 


lido em: Cem Poemas Portugueses do Adeus e da Saudade

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Sábado, 21 de Junho de 2008
o búzio

Fecha só os olhos meu amor. E devagar

escuta os mesmos sons. A água

escorre para a sede quente:

areia de pés nus.

 

Encosta só o ouvido. Respira

esta harmonia deste corpo. Os mesmos sons

projectos do tamanho deste mar.

 

Suave esta espiral. Flauta de ruídos

para ouvir.

~E não se parte o corpo. Só pelos sons

os mesmos sons. Tocata para um dia.

 

Escuta. Compara. Não vês a diferença

entre o cantar e o ser

de uma alegria?

 

in Cinco Vezes Onze Poemas em Novembro

 

***

Manuel Rui (1941)

Angola



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