Desce enfim sobre a manhã
uma quietação de alma;
E ao subir o fecho da calça,
Esqueço a noite em que uma alemã,
Com falsa antipatia, quis um verso inglês.
A mão já não treme ao terceiro branco,
É com altivez que me chego ao quarto,
Pronto à hermética de tasco.
Entre solavanco e pernalta
Borreguei, então, ao modo gasco.
Fosse poeta noutra vida
Ou escriturário nos Douradores,
Com chuva lá fora e metafísica dentro,
A senhora teria métrica entre-perna,
Mais adequada talvez,
De quem mão não treme no final do mês.
***
nunes da rocha
*
Dizem que a vida me foi dada à borla.
Só eu sei quanto isso me custa.
Dizem que não penso nos outros.
Deus sabe o tempo que gasto a pensar nisso.
Dizem que tenho um ego agigantado.
É a única coisa que tenho.
Dizem que vou acabar sozinho.
Têm razão.
***
miguel martins
lisboa, 1969
*
Ao fazer a mala, reparou que pouco
levava daquela lúgubre cidade.
Alguns vestidos, as primeiras frésias,
que tivera de presente, agora murchas,
uma dezena de exemplares de Moody
que lhe serviram para amortalhar o resto.
Se é que alguma coisa restava, pensou
junto ao aparador, enquanto no espelho
se perdia o fogo ruivo dos cabelos,
sublinhado pelo negrume do olhar.
Ao ajoelhar-se sobre a mala, escreveu,
em vez do seu nome, «Goodbye to love».
Era esta também a sua única morada,
até que a morte ou a chuva a apagassem.
***
manuel de freitas
*
Hoje soube uma coisa extraordinário,
que morreste; talvez já to tenham dito,
embora o caso verdadeiramente não
te diga respeito, e seja assunto nosso, vivo.
Algo, de facto, deve ter acontecido,
porque nada acontece, a não ser o costume,
amor e estrume, quanto ao resto
tudo prossegue de acordo com o Plano.
Há apenas agora um buraco aqui,
não sei onde, uma espécie de
falta de alguma coisa insolente e amável,
de qualquer modo, aliás, altamente improvável.
Depois, de gato para baixo, mortos
(lembrei-me disso de repente,
agora que voltaste malevolamente a ti)
estamos todos. A gente vê-se um dia destes por Aí.
***
manuel antónio pina
*
«Soube encontrar no areão a flor em transe.»
e apontaste o ventre aberto da ondina:
carnagem crua te enquadrava, laminosa,
a face fria com a nuvem de falenas,
um relâmpago no estômago, e essa ombreira
pálida à mercê da lamparina; ovíparos
recados sob estacas, e tripas, e folhas
e escamas também. Engastado à tua voz,
«Toca-me os olhos com as pontas, sem a sombra
que de repente se enrolou entre os meus passos.
Vê, sob os círculos do peito, o peixe negro:
morde, puxa, rasga a pele do braço avesso»
E há tempo à justa pra empalhar outra corola,
o laço escuro a ecoar a trovoada
***
luís manuel gaspar
*
Esta tarde, sentado num banco de jardim,
tentava ler um livro difícil
enquanto esperava por ti.
O livro tornava mais dura, mais penosa, a espera.
Então levantei os olhos das páginas,
pousei o livro, vi um homem novo
aproximar-se e passar à minha frente
com um saco plástico
com maçãs vermelhas numa das mãos
e uma caixa de cartão, com ovos, na outra.
O saco de plástico era transparente
e revelava nitidamente o esplendor e a forma
perfeita das maçãs, todas muito juntas
como partes de um todo.
Não consegui deixar de as olhar,
e tu chegaste logo de seguida.
Só agora, depois do jantar
e da loiça lavada, me lembrei do livro
que ficou no banco do jardim.
***
luís filipe parrado
*
Ali ninguém me espera. Nem eu disse
que queria ficar.
Um jantar solitário, a chuva a doer nos vidros,
um quarto simples e preparado à pressa.
Na manhã seguinte o ar era limpo como as palavras num bom poema
e as ruas e as casas, despidas de retórica,
desenhavam-nos o dia, simplesmente.
Sinto-me tão melhor nos lugares
que não fingem estimar-nos,
que não nos impõem memórias nem partilhas,
que se deixam simplesmente ser
e nos permitem não pertencer!
(Porque escrevemos sempre contra alguma coisa,
mesmo quando falamos de felicidade?)
***
luís filipe castro mendes
*
Eu não tinha muita coisa e hoje tenho
a soma dos teus passos quando desces
a correr os treze degraus e
me prometes: até logo. Mas se
nada (ou só o nada) está escrito,
quem mais ama é quem mais tem
a recear. Com isso, passo as horas
num rebate de dramáticos motivos:
engano-me na roda dos temperos,
ponho sal na cafeteira, maionese
no saleiro, vejo o mel mudar de cor
e se me chama o telefone empalideço
como o rosto do relógio da cozinha.
Só sossego quando as gatas me garantem
que chegaste e posso então, aliviado,
unir-me ao coro de miaus que te recebe,
para mais uma noite roubada ao escuro.
***
josé miguel silva
Tremendo a boca a tudo
se prestava. A peste
voava alto
e o secreto
adormecer dos argumentos
deixava já entrar
o verbo olhar.
No canto do jardim
as formigas desmanchavam
o besouro
***
josé carlos soares
*
Entrada a noite,
a gata Electra
esquece vinganças
e senta-se
ao meu lado.
Ouvimos os trios de cordas,
eu bebo whisky,
a bem da morte sóbria
ou, pelo menos,
de um sono conforme;
a vida parece suave,
a pulsação
quase perfeita
e a gata pensa
que não há direito
que alguém sofra.
***
josé alberto oliveira
*
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