Quarta-feira, 16 de Maio de 2012
fala do tipógrafo Vergílio com seus botões

 

Desce enfim sobre a manhã

uma quietação de alma;

E ao subir o fecho da calça,

Esqueço a noite em que uma alemã,

Com falsa antipatia, quis um verso inglês.

 

A mão já não treme ao terceiro branco,

É com altivez que me chego ao quarto,

Pronto à hermética de tasco.

Entre solavanco e pernalta

Borreguei, então, ao modo gasco.

 

Fosse poeta noutra vida

Ou escriturário nos Douradores,

Com chuva lá fora e metafísica dentro,

A senhora teria métrica entre-perna,

Mais adequada talvez,

De quem mão não treme no final do mês.

 

***

 

nunes da rocha

 

*


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publicado por carlossilva às 11:43
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Terça-feira, 15 de Maio de 2012
dizem que a vida me foi dada à borla

 

Dizem que a vida me foi dada à borla.

Só eu sei quanto isso me custa.

 

Dizem que não penso nos outros.

Deus sabe o tempo que gasto a pensar nisso.

 

Dizem que tenho um ego agigantado.

É a única coisa que tenho.

 

Dizem que vou acabar sozinho.

Têm razão.

 

***

 

miguel martins

 

lisboa, 1969

 

*


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publicado por carlossilva às 12:34
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Segunda-feira, 14 de Maio de 2012
leavin' town

 

Ao fazer a mala, reparou que pouco

levava daquela lúgubre cidade.

Alguns vestidos, as primeiras frésias,

que tivera de presente, agora murchas,

uma dezena de exemplares de Moody

que lhe serviram para amortalhar o resto.

 

Se é que alguma coisa restava, pensou

junto ao aparador, enquanto no espelho

se perdia o fogo ruivo dos cabelos,

sublinhado pelo negrume do olhar.

Ao ajoelhar-se sobre a mala, escreveu,

em vez do seu nome, «Goodbye to love».

 

Era esta também a sua única morada,

até que a morte ou a chuva a apagassem.

 

***

 

manuel de freitas

 

*


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Domingo, 13 de Maio de 2012
carta a mário cesariny no dia da sua morte

 

Hoje soube uma coisa extraordinário,

que morreste; talvez já to tenham dito,

embora o caso verdadeiramente não

te diga respeito, e seja assunto nosso, vivo.

 

Algo, de facto, deve ter acontecido,

porque nada acontece, a não ser o costume,

amor e estrume, quanto ao resto

tudo prossegue de acordo com o Plano.

 

Há apenas agora um buraco aqui,

não sei onde, uma espécie de

falta de alguma coisa insolente e amável,

de qualquer modo, aliás, altamente improvável.

 

Depois, de gato para baixo, mortos

(lembrei-me disso de repente,

agora que voltaste malevolamente a ti)

estamos todos. A gente vê-se um dia destes por Aí.

 

***

 

manuel antónio pina

 

*

 


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Sábado, 12 de Maio de 2012
soube encontrar no areão a flor em transe

 

«Soube encontrar no areão a flor em transe.»

e apontaste o ventre aberto da ondina:

carnagem crua te enquadrava, laminosa,

a face fria com a nuvem de falenas,

 

um relâmpago no estômago, e essa ombreira

pálida à mercê da lamparina; ovíparos

recados sob estacas, e tripas, e folhas

e escamas também. Engastado à tua voz,

 

«Toca-me os olhos com as pontas, sem a sombra

que de repente se enrolou entre os meus passos.

Vê, sob os círculos do peito, o peixe negro:

morde, puxa, rasga a pele do braço avesso»

 

E há tempo à justa pra empalhar outra corola,

o laço escuro a ecoar a trovoada

 

***

 

luís manuel gaspar

 

*


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Sexta-feira, 11 de Maio de 2012
partes de um todo

 

Esta tarde, sentado num banco de jardim,

tentava ler um livro difícil

enquanto esperava por ti.

O livro tornava mais dura, mais penosa, a espera.

Então levantei os olhos das páginas,

pousei o livro, vi um homem novo

aproximar-se e passar à minha frente

com um saco plástico

com maçãs vermelhas numa das mãos

e uma caixa de cartão, com ovos, na outra.

O saco de plástico era transparente

e revelava nitidamente o esplendor e a forma

perfeita das maçãs, todas muito juntas

como partes de um todo.

Não consegui deixar de as olhar,

e tu chegaste logo de seguida.

Só agora, depois do jantar

e da loiça lavada, me lembrei do livro

que ficou no banco do jardim.

 

***

 

luís filipe parrado

 

*


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Quinta-feira, 10 de Maio de 2012
uma cidade na Escócia, desfocada no poema

 

Ali ninguém me espera. Nem eu disse

que queria ficar.

Um jantar solitário, a chuva a doer nos vidros,

um quarto simples e preparado à pressa.

Na manhã seguinte o ar era limpo como as palavras num bom poema

e as ruas e as casas, despidas de retórica,

desenhavam-nos o dia, simplesmente.

 

Sinto-me tão melhor nos lugares

que não fingem estimar-nos,

que não nos impõem memórias nem partilhas,

que se deixam simplesmente ser

e nos permitem não pertencer!

 

(Porque escrevemos sempre contra alguma coisa,

mesmo quando falamos de felicidade?)

 

***

 

luís filipe castro mendes

 

*


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Quarta-feira, 9 de Maio de 2012
preocupações naturais

 

Eu não tinha muita coisa e hoje tenho

a soma dos teus passos quando desces

a correr os treze  degraus e 

me prometes: até logo. Mas se

nada (ou só o nada) está escrito,

quem mais ama é quem mais tem

a recear. Com isso, passo as horas

num rebate de dramáticos motivos:

engano-me na roda dos temperos,

ponho sal na cafeteira, maionese

no saleiro, vejo o mel mudar de cor

e se me chama o telefone empalideço

como o rosto do relógio da cozinha.

Só sossego quando as gatas me garantem

que chegaste e posso então, aliviado,

unir-me ao coro de miaus que te recebe,

para mais uma noite roubada ao escuro.

 

***

 

josé miguel silva


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Terça-feira, 8 de Maio de 2012
tremendo a boca a tudo

 

Tremendo a boca a tudo

se prestava. A peste

voava alto

 

e o secreto

adormecer dos argumentos

deixava já entrar

o verbo olhar.

 

No canto do jardim

as formigas desmanchavam

o besouro

 

***

 

josé carlos soares

 

*

 


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Segunda-feira, 7 de Maio de 2012
a gata e Beethoven

 

Entrada a noite,

a gata Electra

esquece vinganças

e senta-se

ao meu lado.

Ouvimos os trios de cordas,

eu bebo whisky,

a bem da morte sóbria

ou, pelo menos,

de um sono conforme;

a vida parece suave,

a pulsação

quase perfeita

e a gata pensa

que não há direito

que alguém sofra.

 

***

 

josé alberto oliveira

 

*


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